Papa Bento XVI na Alemanha
22 - 25 de Setembro

Recolhemos algumas passagens dos discursos do papa, bem como de alguns comentários e palavras que se vão escrevendo / dizendo nestes dias:

Palavras do Papa

Há na Igreja uma necessidade de mudança

Assistimos, há decénios, a uma diminuição da prática religiosa, constatamos o crescente afastamento duma parte notável de baptizados da vida da Igreja. Surge a pergunta: Porventura não deverá a Igreja mudar? Não deverá ela, nos seus serviços e nas suas estruturas, adaptar-se ao tempo presente, para chegar às pessoas de hoje que vivem em estado de busca e na dúvida?
Uma vez alguém instou a beata Madre Teresa a dizer qual seria, segundo ela, a primeira coisa a mudar na Igreja. A sua reposta foi: tu e eu!
Este pequeno episódio evidencia-nos duas coisas: por um lado, a Religiosa pretendeu dizer ao seu interlocutor que a Igreja não são apenas os outros, não é apenas a hierarquia, o Papa e os Bispos; a Igreja somos nós todos, os baptizados. Por outro lado, Madre Teresa parte efectivamente do pressuposto de que há motivos para uma mudança. Há uma necessidade de mudança. Cada cristão e a comunidade dos crentes no seu todo são chamados a uma contínua conversão. (...)

De facto a Igreja deve verificar incessantemente a sua fidelidade a esta missão. Os três evangelhos sinópticos põem em evidência diversos aspectos do mandato da referida missão: esta assenta antes de tudo na experiência pessoal: "Vós sois testemunhas" (Lc 24, 48); exprime-se em relações: "Fazei discípulos de todos os povos" (Mt 28, 19); transmite uma mensagem universal: "Proclamai o Evangelho a toda a criatura" (Mc 16, 15).

Encontro com católicos comprometidos na Igreja e na Sociedade, Freiburg, 25.09.2011
(Trad: Sala de imprensa da Santa Sé)

Cristo quer que a sua luz brilhe em nós

Queridos amigos, Cristo não se interessa tanto de quantas vezes vacilamos e caímos na vida, como sobretudo de quantas vezes nós, com a Sua ajuda, nos erguemos. Não exige acções extraordinárias, mas quer que a sua luz brilhe em vós. Não vos chama porque sois bons e perfeitos, mas porque Ele é bom e quer tornar-vos seus amigos. Sim, vós sois a luz do mundo, porque Jesus é a vossa luz. Sois cristãos, não porque realizais coisas singulares e extraordinárias, mas porque Ele, Cristo, é a vossa, a nossa vida. Vós sois santos, nós somos santos, se deixarmos a sua graça agir em nós.

Vigília de oração com os jovens, Freiburg, 24.09.2011
(Trad: Sala de imprensa da Santa Sé)

A crise da Igreja no mundo ocidental é uma crise de fé

Vemos que, no nosso mundo rico ocidental, há carências. Muitas pessoas carecem da experiência da bondade de Deus. Não encontram qualquer ponto de contacto com as Igrejas institucionais e suas estruturas tradicionais. Mas porquê? Penso que esta seja uma pergunta sobre a qual devemos reflectir muito a sério. Ocupar-se desta questão é a tarefa principal do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. Mas, obviamente, a mesma diz respeito a todos nós. Permiti-me tratar aqui um ponto da situação específica alemã. Na Alemanha, a Igreja está optimamente organizada. Mas, por detrás das estruturas, porventura existe também a correlativa força espiritual, a força da fé no Deus vivo? Sinceramente devemos afirmar que se verifica um excedente das estruturas em relação ao Espírito. Digo mais: a verdadeira crise da Igreja no mundo ocidental é uma crise de fé. Se não chegarmos a uma verdadeira renovação da fé, qualquer reforma estrutural permanecerá ineficaz..

Encontro com o Comité Central dos Católicos alemães (ZDK), Freiburgo 24.09.2011
(Trad: Sala de imprensa da Santa Sé)


Onde há Deus, há futuro

"Onde há Deus, há futuro". Onde Deus está presente, há esperança e abrem-se perspectivas novas e, frequentemente, inesperadas que vão para além do hoje e das coisas efémeras. Neste sentido
acompanho nos pensamentos e nas orações o caminho da Igreja na Alemanha.

Despedida no aeroporto de Lahr, 25.09.2011,
(Trad: Sala de imprensa da Santa Sé)

Sobre Lutero, em Erfurt, onde Lutero viveu como monge

O que o movia era a questão de Deus: era sua paixão profunda e a mola de toda a sua vida e de todo o seu itinerário. "Como posso ter um Deus misericordioso?": esta pergunta entrou-lhe no coração e estava por detrás da sua reflexão e da sua busca teológica. Para Lutero, a teologia não era uma mera questão académica, mas uma luta interior, que, no fim de contas, era uma luta por Deus e com Deus.
"Como posso ter um Deus misericordioso?" Que esta pergunta tenha sido a força que animou todo o seu caminho, impressiona-me profundamente. Com efeito, quem se preocupa ainda hoje com isto, mesmo entre os cristãos? Que importância tem a questão de Deus na nossa vida? no nosso anúncio?
Bento XVI, Encontro com responsáveis da Igreja Luterana, Erfurt, 23.09.11

(Trad: JN)

Ecumenismo: juntos para testemunhar

O nosso primeiro serviço neste tempo que corre tem de ser o de testemunharmos em conjunto a presença de Deus e assim darmos ao mundo a resposta de que ele necessita

Bento XVI, Encontro com responsáveis da Igreja Luterana, Erfurt, 23.09.11
(Trad: JN)

Pluralismo religioso no respeito pelo outro

A Igreja Católica empenha-se com firmeza para que a dimensão pública da pertença a uma religião seja devidamente reconhecida a nível público. No contexto de uma sociedade marcadamente pluralista, esta é uma exigência relevante. Há que estar atento, em tudo isso, que se perserve sempre o respeito pelo outro. Este respeito recíproco só pode crescer na base de um entendimento sobre alguns valores inalienáveis, próprios da natureza humana, sobretudo a dignidade inviolável de cada pessoa como criatura de Deus. Tal entendimento não limita a expressão própria de cada religião; pelo contrário, permite a cada pessoa testemunhar de forma construtiva aquilo em que crê, sem fugir ao confronto com o outro.

Na Alemanha - como aliás noutros países, e não só ocidentais -, este parâmetro comum de referência é proposto de antemão pela Constituição, cujo conteúdo jurídico é vinculativo para todo o cidadão, pertença ele a uma comunidade religiosa ou não.

Bento XVI, Encontro com responsáveis da Comunidade muçulmana, Berlim, 22.09.2011
(Trad: JN)

 

Temos de rasgar janelas para ter ar fresco e luz do dia….

Uma cultura que só aceita uma razão positivista, que não consegue perceber para além daquilo que funciona, parece-se com um edifício de betão sem janelas, em que temos de ter luz e arejamento artificial, por não podermos ter nem uma coisa nem outra do vasto mundo de Deus. E, ao mesmo tempo, não podemos negar que neste mundo que pensa ser criador de si mesmo, vivemos das reservas naturais que Deus nos deu, dando-lhes uma forma que as faz aparecer como produtos nossos. Temos de rasgar janelas, temos de novo de poder ver a vastidão do mundo, o céu e a terra e aprender a usá-las bem. (...)

(Como exemplo), diria que o surgir do movimento ecológico na cena política alemã desde os anos 70, não rasgpu janelas, mas foi e continua a ser um gritar por ar fresco (...) Os jovens tomaram consciência que algo não estava bem na nossa forma de lidar com a natureza. Que a matéria é mais do que material de produção, mas que a Terra tem a sua própria dignidade e que temos de seguir as suas orientações. (...)

O significado da ecologia é indiscuível. Temos de ouvir a linguagem da natureza e responder-lhe de forma adequada. Mas eu gostaria de sublinhar um ponto que continua esquecido, hoje como ontem : também há uma ecologia da pessoa. Também a pessoa tem uma natureza, que ela tem de respeitar e que não pode manipular a seu gosto. O ser humano não é liberdade que se produz a si mesma. O ser humano não se faz a si mesmo. É espírito e vontade, mas também é natureza, e a sua vontade age bem quando respeita a sua natureza, ouve os seus interesses, e aceita-se como é e não como aquele que se fez a si mesmo. Assim e só assim acontece a verdadeira liberdade humana.

Bento XVI, Discurso no Parlamento Alemão, Berlim 22.09.2011
Tradução JN

A cultura da Europa

A cultura da Europa nasceu do encontro de Jerusalém, Atenas e Roma - do encontro entre a fé de Israel, a razão dos gregos e o pensamento jurídico de Roma. Este encontro triangular constitui a identidade interna da Europa. A partir da consciência da responsabilidade da pessoa perante Deus, do reconhecimento da dignidade intocável do ser humano, de cada ser humano, a Europa criou parâmetros de direito que neste momento histórico pertence a nós defender.

Bento XVI, Discurso no Parlamento alemão, 22 09 2011
Tradução JN

 

Comentários

Desejamos que continue corajosamente neste caminho, que ajude a unir o que está separado, que dê o seu contributo para que a Igreja continue perto das pessoas, e que as questões que lhe foram expostas nos últimos dias continuem a preocupá-lo.

Christian Wulf, Presidente da Alemanha (católico)
na despedida do Papa, Lahr, 25.09.2011
(Trad: JN)

O envio cristão compromete-nos num empenhamento na sociedade, no sentido da responsabilidade para com os outros. A nossa Igreja realiza em muitos sectores trabalho de pioneiro. (...) O compromisso cristão pelo futuro do bem comum, não é uma questão de querermos ou não, mas enquanto tarefa político-diaconal é parte integrante da nossa fé cristã

Arcebispo Dr. Robert Zollitsch em palavras dirigidas ao Papa no encontro com os leigos alemães, 25.09.2011
(Trad: JN)