Desde há
44 anos que a Igreja propõe à sociedade e ao mundo um dia de oração
pela Paz. É o 1º de Janeiro de cada ano.
Também é
costume que o Papa publique uma mensagem especial para este dia.
Publicamos
aqui extractos da mensagem de Bento XVI, para o Dia Mundial da Paz 2011.
LIBERDADE
RELIGIOSA, CAMINHO PARA A PAZ
(...)
Infelizmente
também o ano que encerra as portas esteve marcado pela perseguição,
pela discriminação, por terríveis actos de violência
e de intolerância religiosa.
Penso,
em particular, na amada terra do Iraque, que, no seu caminho para a desejada
estabilidade e reconciliação, continua a ser cenário de violências
e atentados. Recordo as recentes tribulações da comunidade cristã,
e de modo especial o vil ataque contra a catedral siro-católica de "Nossa
Senhora do Perpétuo Socorro" em Bagdad, onde, no passado dia 31 de
Outubro, foram assassinados dois sacerdotes e mais de cinquenta fiéis,
quando se encontravam reunidos para a celebração da Santa Missa.
(...)
Neste contexto, achei particularmente oportuno partilhar com todos vós
algumas reflexões sobre a liberdade religiosa, caminho para a paz. De facto,
é doloroso constatar que, em algumas regiões do mundo, não
é possível professar e exprimir livremente a própria religião
sem pôr em risco a vida e a liberdade pessoal. Noutras regiões, há
formas mais silenciosas e sofisticadas de preconceito e oposição
contra os crentes e os símbolos religiosos. Os cristãos são,
actualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições
devido à própria fé. Muitos suportam diariamente ofensas
e vivem frequentemente em sobressalto por causa da sua procura da verdade, da
sua fé em Jesus Cristo e do seu apelo sincero para que seja reconhecida
a liberdade religiosa. Não se pode aceitar nada disto, porque constitui
uma ofensa a Deus e à dignidade humana; além disso, é uma
ameaça à segurança e à paz e impede a realização
de um desenvolvimento humano autêntico e integral.
De facto, na
liberdade religiosa exprime-se a especificidade da pessoa humana, que, por ela,
pode orientar a própria vida pessoal e social para Deus, a cuja luz se
compreendem plenamente a identidade, o sentido e o fim da pessoa. Negar ou
limitar arbitrariamente esta liberdade significa cultivar uma visão redutiva
da pessoa humana; obscurecer a função pública da religião
significa gerar uma sociedade injusta, porque esta seria desproporcionada à
verdadeira natureza da pessoa; isto significa tornar impossível a afirmação
de uma paz autêntica e duradoura para toda a família humana.
Por
isso, exorto os homens e mulheres de boa vontade a renovarem o seu compromisso
pela construção de um mundo onde todos sejam livres para professar
a sua própria religião ou a sua fé e viver o seu amor a Deus
com todo o coração, toda a alma e toda a mente (cf. Mt 22, 37).
Este é o sentimento que inspira e guia a Mensagem para o XLIV Dia Mundial
da Paz, dedicada ao tema: Liberdade religiosa, caminho para a paz.
(...)
5.
Poder-se-ia dizer que, entre os direitos e as liberdades fundamentais radicados
na dignidade da pessoa, a liberdade religiosa goza de um estatuto especial. Quando
se reconhece a liberdade religiosa, a dignidade da pessoa humana é respeitada
na sua raiz e reforça-se a índole e as instituições
dos povos. Pelo contrário, quando a liberdade religiosa é negada,
quando se tenta impedir de professar a própria religião ou a própria
fé e de viver de acordo com elas, ofende-se a dignidade humana e, simultaneamente,
acabam ameaçadas a justiça e a paz, que se apoiam sobre a recta
ordem social construída à luz da Suma Verdade e do Sumo Bem.
Neste
sentido, a liberdade religiosa é também uma aquisição
de civilização política e jurídica. Trata-se de um
bem essencial: toda a pessoa deve poder exercer livremente o direito de professar
e manifestar, individual ou comunitariamente, a própria religião
ou a própria fé, tanto em público como privadamente, no ensino,
nos costumes, nas publicações, no culto e na observância dos
ritos. Não deveria encontrar obstáculos, se quisesse eventualmente
aderir a outra religião ou não professar religião alguma.
Neste âmbito, revela-se emblemático e é uma referência
essencial para os Estados o ordenamento internacional, enquanto não consente
alguma derrogação da liberdade religiosa, salvo a legítima
exigência da justa ordem pública. Deste modo, o ordenamento internacional
reconhece aos direitos de natureza religiosa o mesmo status do direito à
vida e à liberdade pessoal, comprovando a sua pertença ao núcleo
essencial dos direitos do homem, àqueles direitos universais e naturais
que a lei humana não pode jamais negar.
A liberdade religiosa
não é património exclusivo dos crentes, mas da família
inteira dos povos da terra. É elemento imprescindível de um
Estado de direito; não pode ser negada, sem ao mesmo tempo minar todos
os direitos e as liberdades fundamentais, pois é a sua síntese e
ápice. É "o papel de tornassol para verificar o respeito de
todos os outros direitos humanos". Ao mesmo tempo que favorece o exercício
das faculdades humanas mais específicas, cria as premissas necessárias
para a realização de um desenvolvimento integral, que diz respeito
unitariamente à totalidade da pessoa em cada uma das suas dimensões.
Liberdade
religiosa, caminho para a paz
15. O mundo tem necessidade de Deus; tem necessidade
de valores éticos e espirituais, universais e compartilhados, e a religião
pode oferecer uma contribuição preciosa na sua busca, para a construção
de uma ordem social justa e pacífica a nível nacional e internacional.
A paz é um dom de Deus e, ao mesmo tempo, um projecto a realizar,
nunca totalmente cumprido. Uma sociedade reconciliada com Deus está mais
perto da paz (...)
(Sublinhados
nossos)
Texto
completo em http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ben-xvi_mes_20101208_xliv-world-day-peace_po.html