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a
nossa homenagem |
De
14 a 24 de Março, iremos colocando um novo texto de Óscar Romero,
para melhor ajudar a conhecer o seu pensamento e anúncio profético.
Textos de Oscar Romero
| Morte e ressurreição | 8. |
A quaresma é pois um chamamentro a celebrar a nossa redenção neste difícil complexo de cruz e vitória. O nosso povo actualmente está muito capacitado, todo o seu ambiente nos fala de cruz. Mas os que têm fé e esperança cristã sabem que por detrás deste calvário de El Salvador está a nossa páscoa, a nossa ressurreição, e essa é a esperança do povo cristão.
(Homilia
de 23 de Março 1980,
um dia antes do seu assassinato)
| A partir da fé e em nome da fé | 7. |
A encarnação
nos socio-político é o lugar do aprofundamento da nossa fé
em Deus e no seu Cristo.
Cremos em Jesus que veio trazer vida em plenitude
e cremos num Deus vivo que dá vida aos homens e quer que os homens vivam
em verdade.
Discurso
por ocasião da atribuição do título de Doutor "honoris
causa" que lhe foi feita pela Universidade de Lovaina (2 Fevereiro 1980)
| Na linha dos grandes profetas bíblicos | 6. |
A Igreja não só encarnou no mundo dos pobres e lhes dá esperança, mas comprometeu-se na sua defesa. As maiorias pobres do nosso país são oprimidas e reprimidas quotidianamente pelas estruturas económicas e políticas do nosso país. Entre nós continuam a ser verdadeiras as palavras dos profetas de Israel: existem entre nós os que vendem o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias; os que amontoam violência e o despojo nos seus palácios...
Discurso
por ocasião da atribuição do título de Doutor "honoris
causa" que lhe foi feita pela Universidade de Lovaina (2 Fevereiro 1980)
| Incarnação da Igreja no mundo dos pobres | 5. |
Como noutros lugares
da América Latina, desde há muitos anos, talvez séculos,
ressoam estas palavras do Êxodo: "Ouvi o clamor do meu povo, vi a opressão
de que é vítima" (Ex. 3,9). Estas palavras da Escritura deram-nos
olhos novos para ver o que sempre foi realidade entre nós, mas tantas vezes
de modo escondido, até aos olhos da própria Igreja.
Aprendemos
a ver os factos essenciais do nosso mundo e julgámo-los como os Bispos
em Medelin e em Puebla. "Esta miséria, como fenómeno colectivo,
é uma injustiça que brada ao céu (Medelin, Justiça,
1).
O constatar destas realidades e o deixar-nos atingir por elas, em vez de
nos afastar da nossa fé, antes nos remeteu para o mundo dos pobres como
nosso verdadeiro lugar; levou-nos a incarnar-nos no mundo dos pobres. E fomos
então descobrindo os rostos concretos dos pobres....
Discurso
por ocasião da atribuição do título de Doutor "honoris
causa" que lhe foi feita pela Universidade de Lovaina (2 Fevereiro 1980)
| Uma evangelização personalizante | 4. |
A Evangelização deste povo, nas actuais condições sociais e políticas do país, não pode contentar-se em continuar a tradição de uma pregação e uma animação de massas ou puramente moralizante, antes tem de empreender a educação personalizante da fé, de modo a formar, através de pequenos grupos de reflexão, homens com uma consciência crítica do meio e com os valores do Evangelho
Quarta
Carta Pastoral
6.8.1979
nº 64
| Anunciar o Reino de Deus - denunciar as idolatrias | 3. |
Na consequência
lógica do anúncio da verdade e do amor e da santidade do Reino de
Deus, a evangelização tem a missão de denunciar a mentira,
a injustiça e todo o pecado que destrua os projectos de Deus.
Mas a
denúncia não tem uma finalidade negativa, antes tem um carácter
profético, buscando a conversão dos que cometem o pecado. (41)
Na
mesma função de denúncia e de conversão proféticas,
a Igreja recorda que toda a absolutização destrói e desorienta
o homem. A vocação do homem só se realiza quando se promove
até à sua dignidade de filho de Deus e de participante da sua vida
divina. (42)
Quarta Carta pastoral, 6.8.1979, 41-42
| Igreja ao lado do povo: sal, luz e fermento | 2. |
Sem se afastar
da sua identidade, pelo contrário, sendo ela mesma, a Igreja oferece ao
país o serviço de o acompanhar e orientar nos seus anseios de um
povo livre e libertador.
Para isso, deve recorrer ao mandato de Jesus: ser
luz, sal, fermento da sociedade, encarnando-se cada vez mais na própria
história do povo, nas suas angústias e esperanças.
Quarta
Carta Pastoral
6 de Agosto 1979
| A missão profética da Igreja | 1. |
Como Jesus, a Igreja quer continuar a denunciar o pecado dos nossos dias. Tem que denunciar o egoísmo que se esconde no coração de todas as pessoas, o pecado que desumaniza as pessoas, que desfaz as famílias, que faz do dinheiro, do possuir, do lucro e do poder fins em si mesmos. E, como acontece com qualquer pessoa que tenha um mínimo de visão, uma capacidade mínima de análise, a Igreja tem de denunciar o que com razão se vem chamando "pecado estrutural", quer dizer, aquelas estruturas sociais, económicas, culturais e políticas que marginalizam eficazmente o nosso povo. Quando a Igreja "ouve o clamor dos oprimidos" não pode deixar de denunciar as estruturas sociais que causam e perpetuam a miséria da qual provém esse clamor. (...)
Precisamente nestes momentos em que a Arquidiocese está fazendo um grande esforço para ser fiel ao Evangelho, começam a ouvir-se as vozes que nos acusam daquilo que mais faz doer: de ter atraiçoado o Evangelho. São múltiplas estas vozes, mas podemos reduzi-las a três temas: 1. os que acusam a Igreja dizendo que ela prega o ódio e a subversão; 2. os que dizem que a Igreja se tornou marxista; 3. os que dizem que a Igreja ultrapassou os limites da sua missão para meter-se na política. (...)
Mas a Igreja, longe de atraiçoar o Evangelho com a sua palavra, nestes últimos meses e anos, não fez mais do que ser fiel à sua missão. Precisamente porque lhe interessa o bem de todas as pessoas e da pessoa toda, pronunciou-se sobre os acontecimentos do país, porque assim o exige a defesa dos direitos humanos e a salvação das almas.
D.
Oscar Romero
(Carta pastoral, 6 de Agosto 1977)
Oscar
Arnulfo Romero
Biografia breve
Nasceu a 15 de Agosto 1917, em Ciudad Barrios, filho de um empregado
dos correios.
Na sua juventude, trabalhou como carpinteiro.
Em 1931 entrou
para o seminário claretiano.
Estudou depois teologia em Roma, onde,
em 1942 foi ordenado presbítero.
A partir de 1967 foi secretário
da Conferência Episcopal de El Salvador.
Em 1970 foi nomeado bispo
auxiliar de El Salvador.
Passou depois a bispo residencial de Santiago de
Maria e em 1977 foi nomeado Arcebispo de S. Salvador.
Foi morto a 24 de Março
1980, enquanto celebrava missa na capela de um hospital, num atentado organizado
pelo então presidente da República de El Salvador.
Partindo
de uma espiritualidade de tendência conservadora e defensor de um modelo
de Igreja tradicional, Oscar Romero "converteu-se" a partir da observação
da repressão e da violência de que eram vítimas os camponeses
pobres do seu país.
O destino dos pobres tocou-o profundamente.
O assassinato do jesuita Rutilio Grande, teólogo da linha da teologia da
libertação, foi o "sinal" que o fez despertar e mudar
de atitude.
A partir daí, Oscar Romero não deixa de denunciar
profeticamente a violência e a repressão de que os pobres eram vítimas,
tornando-se imagem de uma Igreja ao lado dos pobres. Profeta da não-violência,
acabaria por ser vítima da violência que ele denunciava.
(JN)