MEMORANDUM "LIBERDADE"
MANIFESTO DE PROFESSORES DE TEOLOGIA DE LÍNGUA ALEMÂ
Mais de 150 professores de Teologia das Universidades de língua alemã publicaram nestes primeiros dias de Fevereiro um "memorandum" , um apelo à reforma e à renovação na Igreja.
Aqui traduzimos algumas passagens especialmente significativas:
(...)
Como
professores e professoras de teologia não podemos continuar calados. Sentimos
a responsabilidade de dar o nosso contributo para um novo começo: 2011
tem de ser um ano de renovação na Igreja. No ano que passou saiu
da Igreja católica um número tão elevado de cristãos
como nunca. Recusam-se a seguir as orientações da direcção
da Igreja ou privatizam a sua vida de fé, para se protegerem da instituição.
A Igreja tem de compreender estes sinais e abandonar estruturas petrificadas,
para reganhar vida e credibilidade.
A
renovação das estruturas eclesiais não se consegue num processo
de enclausuração provocada pelo medo da sociedade, mas sim com a
coragem para a autocrítica e para a aceitação de impulsos
críticos - mesmo que venham de fora.
(...)
A
Igreja não existe para si mesma. Tem a missão de anunciar a todas
as pessoas o Deus de liberdade e de amor de Jesus Cristo. E isso só o consegue
se ela própria for lugar e testemunha da mensagem de liberdade do Evangelho.
No que ela diz e faz, nas suas regras e estruturas - toda a forma como ela lida
com as pessoas, dentro e fora da Igreja - tem de responder à exigência
de reconhecer e promover a liberdade das pessoas enquanto criaturas de Deus. Respeito
incondicional por cada pessoa humana, respeito da liberdade da consciência,
empenhamento pelo direito e pela justiça, solidariedade com os pobres e
oprimidos: são estes os padrões de medida que resultam do compromisso
da Igreja para com o Evangelho. Aí se torna concreto o amor a Deus e ao
próximo.
(....)
Em todos os casos, tem de valer este princípio: a mensagem de Liberdade do Evangelho é a medida para a credibilidade da Igreja, para o seu agir e para as suas estruturas.
Um diálogo aberto tem de ser feito sobre os seguintes temas:
1.
Estruturas de participação. Em todos os sectores da vida da
Igreja a "prova dos nove" para a credibilidade da Igreja é a
participação dos crentes. Segundo o velho princípio do Direito
- "aquilo que diz respeito a todos deve ser decidido por todos" - precisamos
de mais estruturas sinodais a todos os níveis da Igreja. Os crentes têm
de poder participar na escolha dos ministros (Bispos, párocos). (...)
2. Comunidade. (...) Sob a pressão da falta de padres, estão
a fazer-se unidades pastorais "XXL", onde é praticamente impossível
viver a proximidade e a pertença. (...) O ministério na Igreja
deve ser posto ao serviço da comunidade e não o contrário.
A Igreja precisa de padres casados e de abrir às mulheres o acesso aos
ministérios.
3.
Cultura do direito. O reconhecimento da dignidade e da liberdade de toda a
pessoa mostra-se de maneira especial quando se resolvem conflitos de forma justa
e em respeito mútuo. (...) A protecção do direito e uma cultura
do direito na Igreja têm de ser melhoradas com urgência. (...)
4.
Liberdade de consciência. O respeito pela liberdade da consciência
individual significa ter confiança na capacidade de decisão e de
responsabilidade das pessoas. Apoiar esta capacidade é uma tarefa da Igreja,
mas isso não pode cair numa atitude de tutela. Isto aplica-se sobretudo
o sector das decisões de vida pessoal e das formas individuais de vida.
. Não está em causa o grande valor que a Igreja atribui ao casamento
e às formas celibatárias de vida. Mas isso não significa
que se tenham de excluir pessoas que vivem o amor, a fidelidade e o cuidado mútuo
numa relação homosexual ou que vivem de modo responsável
como divorciados que se voltaram a casar.
5. Reconciliação.
Solidariedade com os "pecadores" supõe o levar a sério
os pecados no seu próprio terreno. Um rigorismo moral auto-suficiente não
"fica bem" à Igreja. A Igreja não pode pregar a reconciliação
com Deus, sem começar por criar condições de reconciliação
para com aqueles a quem a Igreja ofendeu: por violência, por privação
de direitos, por inversão da mensagem de liberdade do Evangelho numa moral
de rigorismo sem misericórdia.
6. Celebrações.
A liturgia vive da activa participação de todos. Experiências
e e formas da actualidade devem encontrar nela lugar. A celebração
não pode fixar-se no tradicionalismo. Pluralismo cultural enriquece a vida
litúrgica e não se coaduna com uniformizações centralistas
(...).
O processo de diálogo
agora iniciado pode conduzir a uma libertação e novo começo
se todos os que participam estiverem dispostos a enfrentar as questões
levantadas. Trata-se de procurar soluções num intercâmbio
de argumentos em liberdade e correcção, de forma a libertar a Igreja
desta situação paralisante em que ela se ocupa só de si mesma.
(...) Medo nunca foi um bom conselheiro em tempo de crise. Cristãs e cristãos
somos desafiados pelo Evangelho a olhar o futuro com confiança e - apoiando-nos
na palavra de Jesus - como Pedro caminhar sobre a água: "Porque é
que tendes tanto medo? È assim tão pequena a vossa fé?"
Texto completo em alemão: www.memorandum-freiheit.de
Tradução nossa (jn).